apologetica

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Livre arbítrio e onisciência divina.

gabriel12345
Sat, 30 Jan 2021 04:09:57 GMT

Como podemos conciliar os dois sem entrar em contradição?

gabriel12345
Mon, 15 Feb 2021 18:52:25 GMT

> @Paulo Vinícius Costa Oliveira > Deus poderia ter criado um mundo em que todos se salvariam, não obstante a preservação do livre arbítrio de cada ser. Este é um grande mistério. Se podia, por que não o fez? Não seria melhor para todos?

ruirmachado
Mon, 15 Feb 2021 19:23:05 GMT

A questão é que a infinita Bondade divina não O compele a agir por necessidade. O agir de Deus é livre. E é inócuo pensar no limite de bem que Deus poderia dar ao mundo, pois é como marcar um ponto em uma reta. Agora, sim, Deus poderia ter salvo mais pessoas do que aquelas que são salvas, ou poderia salvar todas. Mas aí pensemos: será que nenhum bem adveio da ação dos maus sobre a Terra? Nenhuma virtude, nenhum aprendizado, nenhum benefício? A vida dos mártires não nos ensinou nada? No Juízo, veremos, no desfecho, aquilo que agora só conhecemos em parte, e, certamente, Deus será louvado por Sua imensa sabedoria, justiça e bondade.

Paulo Vinícius Costa Oliveira
Mon, 15 Feb 2021 21:46:10 GMT

> @ruirmachado > No Juízo, veremos, no desfecho, aquilo que agora só conhecemos em parte, e, certamente, Deus será louvado por Sua imensa sabedoria, justiça e bondade. Exatamente. A justiça divina é uma perfeição que também deve ser adorada, e talvez sem condenados não haveria de brilhar da mesma maneira, dada a vontade de Deus ter sido admiti-la na economia da salvação. Também, posto que uma alma santa, como dos mártires, glorifica mais a Deus do que milhares de almas medíocres, redunda em maior glória divina que se salvem alguns grandes santos do que muitas almas de pouca virtude.

ruirmachado
Mon, 15 Feb 2021 22:26:41 GMT

Tudo isso é verdade. Não queremos, porém, com isso, dizer que Deus não ama suas criaturas ou que não tem vontade sincera de salvar a todos. Essa vontade salvífica universal identifica-se com a essência divina, que é também pura bondade. Mas, no aqui e agora, Deus também quer salvar uns absolutamente, enquanto permite que outros se percam. O calvinismo, que é a vertente protestante que nega a vontade salvífica universal, nega o livre arbítrio, me causa horror, entre outras coisas, porque o Deus calvinista me parece ter traços do demiurgo sobre o qual mencionei acima, pelo menos para aqueles calvinistas menos esclarecidos, e que é o calvinismo que se conhece popularmente. Eles não estão preocupados com a filosofia, ou com o reto entendimento de Deus, e procuram encobrir suas blasfêmias sob o manto do fideísmo.

Paulo Vinícius Costa Oliveira
Mon, 15 Feb 2021 22:54:59 GMT

Sim. Certa feita ouvi que o jansenismo foi o calvinismo no catolicismo, e julguei a definição muito exata. Hoje é um erro que não seduz mais, porém prejudicou enormemente a fé de muitos.

ruirmachado
Tue, 16 Feb 2021 02:12:46 GMT

Os principais sistemas católicos sobre a predestinação, providência, graça e livre arbítrio: *1) Molinismo* - Sustenta que Deus possui a "ciência média", ciência dos futuríveis livres ou futuros livremente condicionados, os quais não estariam sob a determinação de Deus, mas das causas segundas que atuam livremente. A "ciência média" foi concebida por *Pedro da Fonseca*, filósofo português, e por *Luís de Molina*, jesuíta espanhol. Assim, Deus atuaria simultaneamente ao homem, com seu concurso, possibitando ao homem determinar a si próprio sem que a isso fosse conduzido previamente pela Causa primária. Sobre a predestinação, o molinismo entende que ela é posterior aos méritos previstos. Outros teólogos fizeram adições a esse sistema, chegando a modificá-lo em alguns pontos, o que resultou no congruísmo. *2) Congruísmo* - Defendido por *São Roberto Belarmino* e *Suárez*, difere do molinismo ao propor a "graça côngrua", isto é, a graça se adaptaria às condições objetivas e subjetivas da pessoa. Os teólogos congruístas sustentaram uma predestinação anterior à previsão dos méritos, embora não admitissem a graça intrinsecamente eficaz. Também supunham a "ciência média", por meio da qual Deus conheceria os futuríveis e daí faria a distribuição das graças côngruas de modo a levar a cabo eficazmente o Seu plano de predestinação. *3) O tomismo (banezianismo)* - Embora remonte a Santo Tomás, seus adversários sustentam que tal sistema se deve, na verdade, a *Bánez*. O tomismo entende que Deus predetermina, por meio de Seus decretos, a vontade humana, sem tirar-lhe a natureza de causa livre. Também sustenta a soberania da escolha divina frente ao mistério da predestinação. *4) Agostinianismo* - O sistema agostiniano (que aqui não faz referência direta a Santo Agostinho, mas a um grupo de teólogos do século XVIII) é o sistema que mais se aproxima do jansenismo (uma forma de agostinianismo extremado), mas mantendo a ortodoxia. De acordo com o agostinianismo, Deus não predetermina a vontade de modo físico, o que pareceria violentar o livre arbítrio, mas de modo moral. Quanto ao mais, continua-se a defender a soberania das escolhas divinas. *5) O sincretismo* - Defendido por teólogos da *Sorbonne* e por *Santo Afonso de Ligório*. Entende que há uma graça extrinsecamente eficaz para os atos fáceis, e uma graça intrinsecamente eficaz para os atos difíceis. O sistema sincretista, na verdade, junta o molinismo e o tomismo num único sistema, distinguindo-os se se trata de atos fáceis e difíceis. Os que se aproveitam da graça extrinsecamente eficaz por meio da oração, recebem infalivelmente a graça intrinsecamente eficaz. Esse sistema se parecerá, mais tarde, com o concebido por Marín-Sola no século XX. A diferença está em que Marín-Sola concebe a graça extrinsecamente eficaz (para atos fáceis) nos moldes de uma premoção física — uma premoção física falível ou impedível. *6) O sistema de Marín Sola* - O dominicano *Marín-Sola* concebeu seu sistema em artigos da revista "Ciência Tomista", publicados na década de 1920. Propunha que há dois tipos de Providência e dois tipos de premoção física (o influxo prévio mediante Deus moveria a vontade da criatura). Da Providência geral derivaria premoções físicas falíveis, que poderiam ser impedidas e modificadas pela atuação livre da criatura, a qual teria o poder de resistir ao bem recebido da Causa primária. Da Providência especial derivaria premoções infalíveis para aqueles que aproveitassem as premoções físicas falíveis (graças suficientes). Outro dominicano, *Muniz*, defende esse sistema em comentários à edição bilíngue da Suma Teológica da BAC. Alguns outros, como o *Cardeal Journet* e *Maritain* aderiram a essa posição, e ela teria sido defendida por um mercedário amigo de Bánez, *Francisco Zumel*, antes mesmo de ter sido concebida por Marín-Sola. Garrigou-Lagrange fez objeções aos artigos de Marín-Sola.

Paulo Vinícius Costa Oliveira
Tue, 16 Feb 2021 12:21:41 GMT

Muito bom, Rui. É um artigo pronto para quem quiser saber com mais circunspeção acerca do assunto.

ruirmachado
Tue, 16 Feb 2021 14:49:40 GMT

Santo Afonso de Ligório não admite premoção física nem para os atos difíceis. Em seus escritos, ele admite uma predeterminação moral, ao molde dos agostinianos. Essa seria mais uma diferença de seu sistema em relação ao de Marín-Sola. *Premoção física (influxo prévio da Causa primária que determina a vontade)* Admitido por: - Tomistas (banezianos) - Marín-Sola - distinguindo em falíveis e infalíveis *Predeterminação moral (influxo prévio infalível, mediante o qual a vontade seria movida não coercitivamente pelo deleite vencedor)* Admitido por: - Agostinianos - Santo Afonso de Ligório (para os atos difíceis) *Ciência Média (conhecimento divino acerca dos futuríveis, isto é, os futuros condicionados que dependem da livre vontade da criatura)* Admitido por: - Molinistas - Congruístas *A graça eficaz (que leva infalivelmente ao ato salutar, isto é, não resistida pela vontade da criatura):* - Para os tomistas - Intrinsecamente eficaz (propriedade da própria graça) - Para os molinistas - Extrinsecamente eficaz (depende da adesão da vontade da criatura) - Para os congruístas - Extrinsecamente eficaz (depende das circunstâncias objetivas e subjetivas, como a vontade da criatura) - Para os agostinianos - Intrinsecamente eficaz (predeterminação moral) - Para o sincretismo - Intrinsecamente eficaz (para os atos difíceis) - Para Marín-Sola - Intrinsecamente eficaz (para os atos difíceis) *Predestinação incondicionada à glória (anterior à previsão dos méritos)* Admitido por: - Tomistas (banezianos) - Congruístas (que também admitem a ciência média e a autodeterminação da vontade criada) - Agostinianos

Paulo Vinícius Costa Oliveira
Tue, 16 Feb 2021 17:45:07 GMT

Há alguma dessas escolas que está mais próxima de ter o consenso dos teólogos?

ruirmachado
Tue, 16 Feb 2021 17:55:26 GMT

Não, o que há é uma adesão de acordo com ordens religiosas. Por exemplo, redentoristas vão seguir a opinião de Santo Afonso. Dominicanos vão seguir a posição tomista. E o congruísmo foi imposto à Sociedade de Jesus pelo seu Superior Geral, Acquaviva. Se bem que isso não impede que haja modificações internas, por exemplo, Marín-Sola e Muniz eram dominicanos, Pe. Pietro Parente também, e não seguia a opinião tomista clássica (negava a premoção física e a ciência média). Garrigou-Lagrange chama todas essas opiniões intermediárias entre o tomismo e o molinismo de "congruísmo", tipo "congruísmo de Suárez e São Roberto Belarmino", "congruísmo da Sorbonne", "novíssimo congruísmo" do Padre Marín Sola. Também chama as que buscam rejeitar igualmente a premoção física e a ciência média de "ecletismo". Mesmo que haja atualmente algum consenso, eu não atribuiria autoridade a esse consenso. Prefiro me fiar no que me parece ser a autoridade da razão. Por isso, adoto a posição tomista clássica (baneziana).

ruirmachado
Tue, 16 Feb 2021 18:25:36 GMT

Corrigindo: Pietro Parente não era dominicano. Pensei ter visto seu nome com a sigla O. P., mas foi impressão.

ruirmachado
Tue, 16 Feb 2021 18:39:49 GMT

Eudaldo Forment, professor da Universidade de Barcelona, adota a posição de Marín-Sola, e tem artigos escritos sobre isso no site "infocatólica". O professor Néstor Martinez, uruguai, cofundador do site "Fe y razon", já adota a posição baneziana e tem artigos no mesmo site. Outro que adota a posição de Marín-Sola é o Carlos Alberto, tomista muito conhecido por seus artigos bastante eruditos sobre teologia escolástica.

ruirmachado
Tue, 16 Feb 2021 18:48:59 GMT

A postura de Marín-Sola tem um defeito que eu não realmente não consigo conceber como pode ter tido a adesão de um Maritain ou de outros filósofos tão notáveis, que é a questão da criatura poder esquivar-se de ser movida pela Causa primária. Todos sabemos que para parar um movimento, necessita haver um movimento contrário. Ninguém para um trem com a força do pensamento. Precisa haver uma força contrária para parar o trem. Ora, com que potência o homem vai se opor a Deus, que o move, se todo bem ele recebe de Deus?

ruirmachado
Tue, 16 Feb 2021 18:53:52 GMT

Mas, enfim, eu fiz esse pequeno resumo para mostrar que não se pode, em nome de uma filiação ao tomismo, negar cidadania e respeito a outras posições que se desenvolveram no seio da Igreja, sob a tutela do magistério.

Paulo Vinícius Costa Oliveira
Tue, 16 Feb 2021 21:03:56 GMT

> @ruirmachado > é exatamente essa a tese tomista (que alguns chamam de baneziana), que está de acordo com o Cân. 4 sobre a justificação, do Concílio de Trento, o qual afirma a liberdade da criatura sob a graça movente e excitante. Podemos estabelecer o fundamento dessas graças na presença de Deus por potência em todas as criaturas, presença essa que São Paulo aludiu no discurso no Aerópago, ao dizer que em Deus nós nos movemos? Pois Deus é a fonte da nossa potência de agir, e se algo se move de ser em potência (de ser possível) para ser em ato (de ser em realidade), é porque Deus o concedeu, dado que dependemos essencialmente Dele, e sem Ele, nada podemos fazer.

ruirmachado
Wed, 17 Feb 2021 01:08:58 GMT

Exatamente.

gabriel12345
Thu, 18 Feb 2021 03:01:27 GMT

> @ruirmachado > Ao pensarmos em Deus, por mais que isso facilite falar d'Ele, é necessário afastar a linguagem antropomórfica. Ponto interessante, irei me desviar um pouco do assunto. Se temos que distanciar Deus de uma visão antropomórfica, por qual motivo nós temos que fazer tudo para a glória d'Ele?

gabriel12345
Thu, 18 Feb 2021 03:03:05 GMT

Sendo glória e honra qualidades que muitos homens almejavam no passado.

ruirmachado
Thu, 18 Feb 2021 14:09:54 GMT

Deus não precisa de honras, nem de glórias humanas. Nós é que precisamos honrá-lo, pois esse é o propósito da criação, servir à Majestade de Deus.

gabriel12345
Thu, 18 Feb 2021 16:04:36 GMT

A questão não é precisar. Se necessitamos "afastar a linguagem antropomórfica", por qual motivo damos títulos tão nobres e acabamos "humanizando" Deus?

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