apologetica

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Palamas

jpstevanato
Mon, 13 Apr 2020 20:55:53 GMT

Preciso mostrar para um amigo que Palamas é gnóstico

ruirmachado
Tue, 14 Apr 2020 15:49:50 GMT

Eu entendo gnosticismo, de forma genérica, como a presunção de um tipo de conhecimento que não é oriundo nem da razão, nem da revelação, mas um tipo de conhecimento oculto, revelado apenas aos iniciados, e isso tem a ver com aquela proposta da serpente de fazer com que o homem se autodeificasse através do conhecimento, por isso, as seitas gnósticas tanto reverenciavam essa serpente, e reverenciam até hoje. Já Gregório Palamas não parece se encaixar nessa definição acima, a não ser que se use alguma analogia com o gnosticismo em algum ponto específico. Sua doutrina é aquela de que Deus se distingue no diz respeito à Sua essência - que é inacessível - e às suas energias (ou manifestações, teofanias, etc.). Essas energias, portanto, não seriam algo criado, mas a própria Divindade, e os bem-aventurados no céu também não veriam Deus senão em suas energias (não em Sua essência, como ensina a teologia católica). O problema dessa doutrina é que, em última análise, contrapõe-se à simplicidade divina. Se Deus é absolutamente simples, não há nele composição alguma. Gregório Palam as também foi bispo de Tessalônica e adversário da Igreja de Roma, apesar de se referirem a ele como santo, por conta de sua veneração por grupos de orientais que se uniram com Roma. Certamente, foi um cismático, que se opôs terminantemente ao Papado e às ideias do Ocidente, sem fazer qualquer juízo sobre sua boa fé. Suas obras estão na "Patrologia Graeca" de Migne, em grego e com tradução para o latim, a qual está disponível na Internet, mas só é aproveitável para quem conhece as línguas clássicas. E isso é tudo o que sei a respeito dele.

Carlos Ribeiro
Tue, 14 Apr 2020 16:29:52 GMT

Eu recomendo o verbete da Enciclopédia Católica sobre o Hesicasmo: https://apologetica.net.br/2017/07/17/hesicasmo/ O verbete diz que haveria uma suspeita de panteísmo no hesicasmo, mas entendo que a suspeita seria de [pseudo-]gnose. Comentei isso lá no blogue do Thiago. Se tiver alguma dúvida, eu tento explicar aqui.

ruirmachado
Tue, 14 Apr 2020 17:05:16 GMT

Eu também acho que o panteísmo estaria mais ligado à ideia de uma emanação divina ou do universo como oriundo dessas emanações, como é claro na Cabala, mas acho que a ideia ortodoxa não tem a ver com isso. Sobre o verbete, é uma excelente fonte de referência, do ponto de vista histórico e teológico.

ruirmachado
Tue, 14 Apr 2020 18:03:12 GMT

Carlos, No verbete, está escrito: "O hesicasmo, então, contém dois elementos: a crença de que a contemplação quietista é a mais alta ocupação indicada para os homens, e a afirmação da real distinção existente entre a essência divina e a operação divina." Eu havia me prendido ao segundo elemento; mas o primeiro tem algo que poderia resultar numa suspeita de gnose, realmente, na medida em que menospreza o estudo e outros meios ordinários, para dedicar-se a essa via mística/contemplativa, não acha?

jpstevanato
Wed, 15 Apr 2020 10:35:56 GMT

Muito obrigado.

Carlos Ribeiro
Thu, 16 Apr 2020 00:40:08 GMT

Rui, acho que os dois pontos têm essa suspeita. O prof. Orlando Fedeli ficou famoso por ter um conceito largo demais para gnose, mas eu o considero bem razoável: uma antimetafísica que diviniza o nada (numa versão resumida); se esse conceito não define bem a gnose, ele com certeza é um pano de fundo para todos (ou quase todos) os sistemas gnósticos; e acho que o hesicasmo (Palamás incluso) defende isso — é o que está nos comentários que fiz lá no blogue. Por isso, mesmo a Cabalá me parece gnóstica, não panteísta, pois o Universo não seria provindo de uma das emanações (as emanações são anteriores à criação — como também ocorre nas emanações "brahmanísticas" do hinduísmo), mas criado por um demiurgo (Elohim) após a contração divina (_tzimtzum_). Veja a interpretação cabalista de Gn I, 1: "No Princípio (divindade imanifesta, incognoscível, o Ein, o Nada) criou: Deus (Elohim, divindade manifesta, cognoscível, um demiurgo), os céus, e a terra." No hesicasmo, Deus não é cognoscível, mas apenas Suas energias. Eu vi muito disso também entre judeus messiânicos para os quais a _ Memra_ (o Verbo) tem atributos divinos, mas não é Deus. É curioso como que em todos esses esquemas, aquele primeiro "Princípio" é o mais poderoso, mas ele não tem o poder de se dar a conhecer, nem de criar, nem de se manifestar, etc., etc., etc.

ruirmachado
Thu, 16 Apr 2020 16:31:05 GMT

Isso tudo é muito impressionante. Uma doutrina que diviniza o nada é como um fluido do qual se pode tirar qualquer coisa. Engraçado que os judeus procuram opor obstáculos "racionais" à Trindade e à Encarnação, mas eles mesmo admitem coisas que são absolutamente esdrúxulas. Parece que a única coisa proibida mesmo é o cristianismo.

Thiago Santos de Moraes
Tue, 21 Apr 2020 08:03:07 GMT

Não são mais simples judeus, são fariseus! A _religião de Moisés_ foi substituída pelo talmudismo faz muito tempo, com exceção, talvez, dos caraítas, e daí vem não só o ódio a Cristo, mas também a abertura a crendices.

Carlos Ribeiro
Sat, 25 Apr 2020 04:07:56 GMT

A _Qabbalah_ me parece uma cópia do _Sanathana Dharma_ (hinduísmo) (o prof. Fedeli defendia que a gnose teria entrado na doutrina dos judeus fariseus na época do Segundo Templo, trazida do cativeiro da Babilônia, de inspiração sumeriana, não indiana); muitos conceitos são intercambiáveis (e eu os aprendi há mais de dez anos não para refutá-los, mas como simpatizante, numa fase judaizante e ecumênica da minha vida). O Hinduísmo é tido como a mais antiga religião ainda praticada no mundo e, não coincidentemente, perenialistas costumam usá-lo como pedra de toque para avaliar doutrinas. Recentemente li que Guénon teria dito que o Hesicasmo era a gnose no Cristianismo (oriental) (já que ele dizia que o Cristianismo ocidental teria perdido a gnose, passando a ser uma religião meramente exotérica, com o que não concordava Schuon que reconhecia os sacramentos como "iniciáticos", alegava ter visões de "Maria" - daí o nome da tariqa Mariamiyya - e reconhecia alguns santos católicos). O monge budista mahayana ortodoxo Arya Dharmananda chegou a reconhecer que o _Sanatana Dharma_ (in terpretado por ele como Budis mo) no Ocidente era a gnose. Voltando ao Hesicasmo, em 2016 comentei com um amigo por email que eu concluí que _a negação do conhecimento natural de Deus e a defesa da experiência "mística" das "energias divinas" perfazem uma forma de gnose, presente não como exceção no hesicasmo, mas como regra dos cismáticos gregos_.