apologetica

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Sementes do Verbo

ruirmachado
Mon, 01 Mar 2021 21:59:21 GMT

Acredito que existem verdades não só naturais, mas também resquícios de revelação sobrenatural pulverizada em alguns povos, religiões e filosofias, misturados com o erro, uns mais, outros menos, mas que serviram para que algumas almas se salvassem mesmo em ambiente pagão, sobretudo antes de Cristo. Há sementes de verdade na religião de Zoroastro, a despeito de seu dualismo. Acredito que alguém pode ter se salvado orando a Ahura Mazda e acreditando estar orando para o Deus criador de todo o bem, e penso: nessas horas, o que importa é a conformidade da ideia de Deus, não os nomes ou os mitos que foram usados para aquela ideia chegasse a ele. Igualmente, em outros lugares, tivemos figuras que foram exemplos de virtude, ou que pregaram a virtude, ainda que não fossem arautos de uma revelação: Platão, Cícero, Sêneca, Buda, Confúcio, etc. Não sabemos até que ponto esses homens iluminaram seus compatriotas, apesar do apego a suas doutrinas, num tempo posterior, ter claramente dificultado a outros o acesso à mensagem cristã. Acho que essa convicção semi-otimista não é nova, não é fruto do Vaticano II; é fruto da visão semi-otimista que a Igreja sempre possuiu acerca da razão humana, das potencialidades humanas e da boa vontade de Deus para com o homem. O que pensam os confrades?

rodriggo
Tue, 02 Mar 2021 11:22:21 GMT

O Cardeal Newman sustenta esta ideia no seu Ensaio sobre o desenvolvimento da doutrina (não confundir com o erro da "evolução do dogma") e outros textos, como [este](http://www.newmanreader.org/works/essays/volume2/milman2.html): > [...] great portion of what is generally received as Christian truth, is in its rudiments or in its separate parts to be found in heathen philosophies and religions. For instance, the doctrine of a Trinity is found both in the East and in the West; so is the ceremony of washing; so is the rite of sacrifice. The doctrine of the Divine Word is Platonic; the doctrine of the Incarnation is Indian; of a divine kingdom is Judaic; of Angels and demons is Magian; the connexion of sin with the body is Gnostic; celibacy is known to Bonze and Talapoin; a sacerdotal order is Egyptian; the idea of a new birth is Chinese and Eleusinian; belief in sacramental virtue is Pythagorean; and honours to the dead are a polytheism. Such is the general nature of the fact before us; Mr. Milman argues from it,—"These things are in heathenism, therefore they are not Chr istian:" we, on the contrary, prefer to say, "these things are in Christianity, therefore they are not heathen."

ruirmachado
Tue, 02 Mar 2021 18:33:48 GMT

A prova contundente de que os zoroastristas não estavam dessassistidos de Revelação, nem de profecia, está no fato, atestado pelo Evangelho, de que os magos (seguidores dessa religião) vieram até Jesus, guiados pela estrela de Belém. Ou seja, eles souberam, antes dos judeus, que o Salvador que eles esperavam havia nascido.

nelsonbk23
Tue, 02 Mar 2021 20:03:45 GMT

O padre Bartmann também aplica o tema de sementes do Verbo às falsas religiões: “Também muito significativa a propósito é a doutrina patrística do λόγος σπερματικός (verbum seminale) o qual, enquanto Logos da Revelação, já agia no paganismo. Santo Agostinho, encontrando tantas semelhanças entre os dois modos de manifestação do Logos, afirmou que a religião cristã de algum modo já existia entre os antigos: "Nam reipsa quae nunc religio Christiana nuncupatur, erat apud antiquos, nec defuit ab initio generis humani" (Retract 13,3). Note-se, porém, que Santo Agostinho, mesmo referindo-se neste texto não somente aos hebreus, mas também aos gentios, evita confundir o natural com o sobrenatural, a razão com a fé, o cristianismo com o pré-cristianismo; pois, ninguém mais que ele exalta a graça em face à natureza. Todavia, estas citações patrísticas permitem-nos reconhecer, pura e simplesmente, o paralelismo, as analogias, as semelhanças formais que os historiadores das religiões comparadas nelas encontram, com as instituições e as doutrinas cristãs; não endossamos, porém, a in tenção dos racionalistas de tudo confundir e nivelar”. (Revelação e fé - Deus - A Criação, vol I, edições Paulinas, 1964, originalmente 1932, p. 24) Os trads inventam que isso seria gnóstico, indiferentismo, sei lá. Há argumentos no mundo trad muitos sérios, mas têm outros que parecem birra.

ruirmachado
Tue, 02 Mar 2021 20:21:43 GMT

Exatamente. E como eu disse antes: o que pode ter iluminado uns, obstruiu, em outro tempo, outros. Da mesma religião dos magos, eram aqueles que reconheceram o Messias, e aqueles que, no reinado de Sapor I, perseguiram os cristãos.

ruirmachado
Tue, 02 Mar 2021 20:34:19 GMT

*Corrigindo: Sapor II