apologetica

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Teologia pagã

ruirmachado
Mon, 01 Feb 2021 00:47:31 GMT

Este trecho da Suma Teológica (IIa IIae, q. 94, a.1, c.) toma por base outras fontes como Varrão e Sto. Agostinho, mas acho muito interessante para o entendimento do paganismo e da teologia pagã: "Respondo: Que, como consta pelo exposto, o próprio da superstição é extralimitar-se indevidamente no culto divino. Isso se sucede, sobretudo, quando se rende culto divino a quem não se deve. No que tange à religião, dizemos que tal culto se há de render exclusivamente ao único Deus soberano e incriado. Por isso, é supersticioso dar culto divino a qualquer criatura. Mas esse culto, o mesmo que se tributava a criaturas insensíveis, valendo-se de certos signos sensíveis, como sacrifícios, jogos e coisas pelo estilo, se lhes dava de igual modo a criaturas representadas em alguma forma ou figura sensível, conhecidas pelo nome de ídolos. De diversos modos, no entanto, se dava culto aos ídolos. E assim, alguns construíam com arte nefanda imagens que, por virtude dos demônios, causavam certos efeitos, o que levava a pensar wue havia nela poderes divinos, e, segundo isso se lhes devia oferecer culto divino. Tal foi a opinião de Hermes Trismegisto, como escreve Santo Agostinho no livro VIII Civ. Dei. Outros, por sua vez, não davam culto divino às imagens, mas às ceiaturas por ela representadas. A um e outro desses modos alude o Apóstolo em Rom 1,23, pois, sobre o primeiro, escreve: Mudaram a glória do Deus incorruptível pela semelhança de homens corruptíveis, de aves, de quadrúpedes e de serpentes. E, em quanto ao segundo, acrescenta: Adoraram e serviram melhor à criatura do que ao Criador. Três foram, contudo, as opiniões desses últimos. Uns criam que certos homens, como Mercúrio, Júpiter, etc., haviam sido deuses, e lhes ofereciam cultovpor meio de suas imagens. Para outros, o mundo inteiro vera o único Deus, não por razão de sua substáncia corpórea, mas por sua alma, da qual pensavam que era Deus, dizendo que Deus não é outra coisa que a alma que governa mediante seu movimento e sua razão ao mundo, do mesmo modo que ao homem o chamamos sábio não por seu corpo, mas por sua alma. Segundo isto, eram de parecer de que a todo o mundo e a cada uma de suas partes, ou seja, o céu, o ar, a água e a todos os demais elementos desta classe, se havia que lhes dar culto divino. Os nomes e imagens de seus deuses, como dizia Varrão e narra Santo Agostinho (VII De Civ. Dei), se referiam a estas coisas. Os terceiros, por último, ou seja, os platônicos, davam por assentado que existia um Deus único e supremo, causa de todas as coisas. Depois d'Ele, supunham que havia outras substâncias espirituais criadas pelo Deus supremo, às quais chamavam deuses, por participar de sua divindade. A estas nós damos o nome de anjos. Após elas, colocavam as almas dos corpos celestes e, a um nível mais baixo, os demônios, dos quais diziam que eram seres animados aéreos. Todavia, mais abaixo ficavam, segundo seu parecer, as almas dos homens, acerca das quais tinham a crença de que, pelo mérito de sua virtude, eram admitidas na sociedade dos deuses ou dos demônios. A todos esses seres, segundo Santo Agostinho no livro XVIII De Civ. Dei, davam culto divino. Diziam que estas duas últimas opiniões pertenciam à *teologia física*, isto é, a que os filósofos descobriam no mundo e ensinavam nas escolas. Da outra, a que se referia ao culto dos homens, afirmavam que pertenciam à *teologia mitológica*, teologia que se representava nos teatros, baseando-se nas invenções fantásticas dos poetas. Finalmente, da outra opinião acerca das imagens diziam que formava parte da *teologia civil*, que era a que os pontífices celebravam nos templos. Tudo isso pertencia à superstição idolátrica. Por usso diz Santo Agostinho no livro II De Doct. Christ.: É supersticioso todo o estabelecido pelos homens para fabricar e dar culto aos ídolos ou para honrar às criaturas ou a uma parte delas."

ruirmachado
Mon, 01 Feb 2021 01:41:53 GMT

Acho que podemos associar as quatro opiniões mencionadas por Santo Tomás, grosso modo, a alguns sistemas religioso-filosóficos: 1) Fetichismo, dendrolatria, animismo; 2) Culto dos Heróis na teologia pagã grega; 3) Bramanismo, taoísmo; 4) Neoplatonismo (Jâmblico), henoteísmo

ruirmachado
Mon, 01 Feb 2021 20:55:05 GMT

O budismo também entraria na segunda categoria: de homens divinizados.

Carlos Ribeiro
Tue, 02 Feb 2021 20:24:24 GMT

Eu sempre gostei dessa divisão de Santo Agostinho, mas não sabia que Santo Tomás a tivesse citado (com tom de aprovação, inclusive). Eu colocaria o culto aos orixás também no 2; Quanto _Sanatana Dharma_ eu dividiria: hinduísmo "védico" e budismo devocional no 3; e Vedanta e budismo esotérico (como da escola Tendai) no 4.