apologetica

Open full view…

Devotio Moderna e Imitação de Cristo

Carlos Ribeiro
Tue, 08 Oct 2019 13:56:03 GMT

No antigo fórum do Ning eu comentei que tinha suspendido meu juízo sobre a Imitação de Cristo, pretendendo um dia estudar melhor a questão. Pois bem. Recentemente um padre argentino – Pe Javier Ravasi– fez uma [conferência](https://www.youtube.com/watch?v=7hPZwmmk7sE) a respeito; a conferência foi transcrita, e posteriormente o Instituto Santo Atanásio a [traduziu](https://institutosantoatanasio.org/blog/item/126-a-devotio-moderna-caracteristicas-e-sintomas). Seguindo Padre García-Villoslada, Pe Ravasi deu as seguintes características: 1- O "cristocentrismo" 2 - O culto ao "método" e ao diretor espiritual 3- Moralismo 4- A tendência antiespeculativa 5- O afeto sobretudo 6- O biblicismo 7- Interioridade e subjetivismo

Paulo Vinícius Costa Oliveira
Wed, 09 Oct 2019 16:43:58 GMT

Eu já conhecia a crítica do Prof. Nougué, e penso que ele está equivocado em todos os pontos que elencou. Faço as seguintes observações: 1. A devotio moderna foi uma resposta à decadência da escolástica, uma feliz resposta, com frutos excelentes. Alguns opinam diferentemente, como vemos, então vamos examinar os argumentos deles. A. Ela não nega a ciência da teologia, e dizer o contrário ao meu ver é um erro de leitura de quem afirma. O que ela combate é uma teologia por demais abstrata e inútil em consequência disso, que se perde em filigranas e não resguarda o único necessário. Tanto ela é profundamente ancorada na boa teologia que trata-se de um livro místico (Garrigou-Lagrange tem um capítulo sobre isso n'As Três Idades), e pouco são os que percebem como ela descreve as características da via mística, talvez devido a uma leitura superficial da mesma. B. Ela não carece de zelo apostólico por uma razão bem simples: foi escrita para monges, que são proibidos de sair de seu respectivo mosteiro, e escrita em uma época que nem imprensa existia (talvez o autor nem sequer imaginou que a obra sairia do mosteiro). Não tendo sido escrita para ninguém de vida apostólica exterior, quem lê deve ter a inteligência de isso perceber e adaptar à sua própria situação, e há boas edições explicando isso, ou seja, de que é preciso acomodação na leitura do texto. Outra vez, creio que é erro, até crasso, de quem critica. Agora, pergunto, será que a miríade de santos que com ela se santificaram, a plêiade de papas que a tinham em alta consideração e os maiores teólogos dos últimos séculos não perceberam esses erros imputados pelo Prof. Nougué? Será que essas críticas graves passaram incógnitas por mentes tão santas, tão sábias e tão iluminadas? Pois eles não tecem nenhuma reprovação à Imitação, pelo contrário, são loas e mais loas em favor dela. Assim, eu prefiro ficar com os santos, papas e os grandes teólogos do que com a parcela ínfima de autores, de pouco vulto, frise-se, que imputam tais teses à Imitação. Por fim, e agora é minha opinião pessoal, penso que o Nougué não foi muito feliz, talvez, ao criar uma polêmica desnecessária e até certo ponto escandalosa, dado o renome da Imitação, o livro católico mais lido depois da Bíblia. Na medida do que é possíve, devemos procurar fugir de todo singularismo, pois a singularidade é um dos maiores escolhos dos que fazem teologia.

Carlos Ribeiro
Wed, 09 Oct 2019 17:24:35 GMT

> @Thiago Santos de Moraes > O ponto, Carlos, é que esses pontos que eles elencam como negativos não são necessariamente negativos O próprio padre o diz, Thiago. "Essa questão, assim como as outras características que veremos, não tem per ser uma maldade intrínseca." "Então, vale a pena repetir: não é que isso seja algo ruim" "Assim, mais uma vez repetimos: não é ruim que a devoção seja fervorosa" > @Thiago Santos de Moraes > a Imitação de Cristo é mais do que consagrado como um livro sem erro Vou enfatizar que é um livro consagrado. As Conferências de São João Cassiano tiveram influência vastíssima no Ocidente, tendo nela se inspirado vários santos fundadores de Ordens religiosas; contudo, a Conferência XIII contém tese semipelagiana.

Carlos Ribeiro
Wed, 09 Oct 2019 17:48:27 GMT

Paulo, Eu não conheço uma crítica anterior do Prof. Nougué, mas apenas os pontos apresentados pelo Pe. Ravasi que remete ainda a um outro trabalho (Padre García-Villoslada). O que foi transcrito e traduzido diz mais da Devotio Moderna do que da Imitação, mas no trabalho há várias citações que ainda pretendo verificar. Quanto à imputação de erros propriamente ditos e ao uso pelos santos, é o mesmo caso acima. Por fim, o livro mais lido depois da Bíblia não é a Legenda Áurea?

Paulo Vinícius Costa Oliveira
Wed, 09 Oct 2019 21:10:46 GMT

> @Carlos Ribeiro > O que foi transcrito e traduzido diz mais da Devotio Moderna do que da Imitação, mas no trabalho há várias citações que ainda pretendo verificar. Interessante você dizer isso, pois eu procurei nas críticas as passagens onde poderiam ser encontrados os erros e não encontrei, posto que eles não fundamentam especificamente, somente criticam genericamente.

Paulo Vinícius Costa Oliveira
Wed, 09 Oct 2019 21:19:41 GMT

> @Carlos Ribeiro > Quanto à imputação de erros propriamente ditos e ao uso pelos santos, é o mesmo caso acima. Creio que não se adequa como no caso acima, Carlos. Uma coisa é o autor proferir heresias materiais enquanto há disputa ou mesmo durante o desenvolvimento da doutrina, heresias essas que vêm posteriormente a serem condenadas pelo Magistério. É o do caso supracitado, assim como de outros casos, como de vários Padres da Igreja, de São Vicente de Lérins, etc. Outra coisa é o caso da Imitação, em que o Magistério não condenou _a posteriori_ nada do que está ali.

Paulo Vinícius Costa Oliveira
Thu, 10 Oct 2019 12:04:25 GMT

> @Carlos Ribeiro > Por fim, o livro mais lido depois da Bíblia não é a Legenda Áurea? Essa informação que eu trouxe peguei-a em um livro, porém creio que não seja a Legenda, porquanto existem várias legendas, e não somente uma, como a Imitação.

Carlos Ribeiro
Fri, 11 Oct 2019 12:59:19 GMT

O trabalho do Padre García-Villoslada está [aqui](https://ia801204.us.archive.org/18/items/MANRESA108.LaDevotioModernaseleccinDeArttculo/MANRESA%20108.%20La%20devotio%20moderna%20(selecci%C3%B3n%20de%20art%C3%ADculo).pdf). Para o meu exemplo, o fato de a tese presente nas Conferências (mas não as próprias Conferências) ter sido formalmente condenada diz mais ainda: não que as obras contenham erros semelhantes, mas que mesmo com erros (ou imprecisões) elas contêm algo de bom (ou de ótimo) que inspirou vários santos. A lista de quem se inspirou e recomendou as Conferências conta com São Bento, São Domingos, São Bernardo e Santa Teresa de Ávila. Guilherme de Tocco, biógrafo de Sto Tomás, diz que o Aquinate lia as Conferências todos os dias. Sobre a Legenda Áurea, a referência da edição da Companhia das Letras diz que ela foi mais editada do que a Bíblia entre 1470 e 1500. Se a diferença entre os manuscritos e edições pesa contra a Legenda Áurea, poderia pesar contra a própria Bíblia (um site inclusive diz que a versão mais lida, King James, perde pro Alcorão).

Carlos Ribeiro
Fri, 11 Oct 2019 13:01:59 GMT

> @Carlos Ribeiro > as almas dos santos são têm uma irrepetibilidade tal as almas dos santos têm uma irrepetibilidade tal

Carlos Ribeiro
Fri, 11 Oct 2019 13:15:19 GMT

> @Carlos Ribeiro > 1- O “cristocentrismo” [...] 7- Interioridade e subjetivismo No trabalho original ainda consta: 8- Distanciamento do mundo; 9- Ascetismo (preponderância do ascético sobre o místico); 10- Bibliofilia, não humanismo (afeição por códices de livros, mas preconceito contra a ciência humana).

Carlos Ribeiro
Fri, 11 Oct 2019 19:20:43 GMT

Paulo, Em “Quanto à imputação de erros propriamente ditos e ao uso pelos santos, é o mesmo caso acima”, apenas quanto ao uso eu me referi às Conferências, sobre a imputação de erros eu me referia a: >@Thiago Santos de Moraes >O ponto, Carlos, é que esses pontos que eles elencam como negativos não são necessariamente negativos >@Carlos Ribeiro >O próprio padre o diz, Thiago. >“Essa questão, assim como as outras características que veremos, não tem per ser uma maldade intrínseca.” >“Então, vale a pena repetir: não é que isso seja algo ruim” >“Assim, mais uma vez repetimos: não é ruim que a devoção seja fervorosa”

Paulo Vinícius Costa Oliveira
Fri, 11 Oct 2019 21:49:46 GMT

Entendo, Carlos. Mas se a crítica é a algo que em si não é ruim, isto não seria então criticismo, como disse o Thiago? Pois até da coisa mais santa e salutar eu posso fazer um uso péssimo: fazer do Rito Romano mera "pastoral do pano", fazer do tomismo um uso abusivo, etc.?

Carlos Ribeiro
Tue, 15 Oct 2019 12:15:03 GMT

Paulo, até agora entendi como uma questão de ênfase. Um exemplo melhor seria a discussão sobre o Breviário: a comemoração dos santos não é ruim no Breviário tradicional (anterior a São Pio X), mas ocuparia um espaço demasiado (contudo muitos não se santificaram pela sua recitação?). ... Quanto àquela questão de escola (dominicana/tomista), Pe. Villoslada (1900–1991) era jesuíta, e o exemplo que ele dá em seu trabalho é Santo Inácio de Loyola (que lia diariamente e recomendava a Imitação, mas soube, diz o padre, completá-la e enriquecê-la).

Paulo Vinícius Costa Oliveira
Tue, 15 Oct 2019 14:13:33 GMT

> @Carlos Ribeiro > a comemoração dos santos não é ruim no Breviário tradicional (anterior a São Pio X), mas ocuparia um espaço demasiado (contudo muitos não se santificaram pela sua recitação? Compreendo, Carlos, e na teoria está correto esse entendimento, todavia discordo que ele se aplica na prática à Imitação, pois não enxergo nenhuma ênfase indevida como os opositores querem indicar. Eles elencaram uma lista de pontos negativos, porém até onde me parece, sem fundamentar.

Thiago Santos de Moraes
Tue, 15 Oct 2019 22:18:42 GMT

Vamos para os supostos problemas: 1- O “cristocentrismo” Tudo tem de ser cristocêntrico mesmo; qualquer coisa que como católicos fazemos ou deixamos de fazer tem de ter sempre na nossa frente o Divino Mestre. A própria Antiga Aliança era cristocêntrica, na medida em que era uma preparação para a chegada do Salvador. A oposição a isso, mas do que qualquer outra, me parece mostrar que temos aí criticismo, e não uma crítica saudável e inteligente. 2 – O culto ao “método” e ao diretor espiritual A vida espiritual não deve ser solta mesmo, pelo menos não para a maioria das pessoas. Pensar o contrário é negar a antropologia negativa do cristianismo, isto é, a noção de que, devido à concupiscência, se deixados sem limites externos, tendemos ao mal. A existência do diretor entra nesse contexto. Observem que eu admito que há um amplo espaço para crítica aqui, pois a subserviência acéfala a diretores e métodos pode levar a situações absurdas em todos os sentidos, como era o caso daqueles que tinham como referencial o Pe. Marcial Maciel, mas cada coisa tem seu lugar; primeiro devemos afirmar a excelência (para a maioria, não para todos, como falei) de um método e de um diretor e, só depois, apontar os casos em que o que é bom pode virar negativo espiritualmente. 3- Moralismo Não conheço nenhum trecho em que eu adjetivaria desse modo na _Imitação_. Alguém pode me apontar um? 4- A tendência antiespeculativa Essa é uma "crítica" de tomista chato; a vida espiritual não é algo que se explique racionalmente. A racionalização é uma ferramenta, sempre distante da realidade, que pode ajudar, ou não! O tomismo dos tomistas às vezes cansa. 5- O afeto sobretudo O homem tem afeto por natureza; não levar isso em conta é querer transformar a Igreja numa fábrica de robôs, como os Arautos do Evangelho. 6- O biblicismo Isso é tão absurdo que não vou nem comentar. 7- Interioridade e subjetivismo Vale aqui o que falei no item 5.

Carlos Ribeiro
Fri, 18 Oct 2019 12:08:29 GMT

> @Paulo Vinícius Costa Oliveira > Compreendo, Carlos, e na teoria está correto esse entendimento, todavia discordo que ele se aplica na prática à Imitação Ok. O exemplo é só referente à possibilidade da crítica (a algo intrínseco, não apenas do uso).

Carlos Ribeiro
Fri, 18 Oct 2019 12:14:17 GMT

Thiago, vc leu: (1) a tradução da transcrição [parcial] da conferência (link no primeiro post); (2) este meu comentário; > @Carlos Ribeiro > No trabalho original ainda consta: 8- Distanciamento do mundo; 9- Ascetismo (preponderância do ascético sobre o místico); 10- Bibliofilia, não humanismo (afeição por códices de livros, mas preconceito contra a ciência humana). e (3) este outro? > @Carlos Ribeiro > Quanto àquela questão de escola (dominicana/tomista), Pe. Villoslada (1900–1991) era jesuíta, e o exemplo que ele dá em seu trabalho é Santo Inácio de Loyola (que lia diariamente e recomendava a Imitação, mas soube, diz o padre, completá-la e enriquecê-la). Só quero saber se vc leu; não é pergunta retórica.

Thiago Santos de Moraes
Fri, 18 Oct 2019 16:33:55 GMT

Li só o que foi postado aqui; os pontos 8, 9 e 10 me parece uma continuidade das ideias que estão na base dos outros, por isso não comentei de modo específico. Você acha que eles trazem algo a mais em relação aos que vão de 1 a 7?

Thiago Santos de Moraes
Sun, 20 Oct 2019 03:24:02 GMT

Agora li a tradução, Carlos. Não vi nela nenhuma crítica à _Imitação_, mas aos exageros que a escola espiritual que lhe deu origem. Em relação a esses exageros, alguns me parece reais, outros não. Vou ver se comento cada um com base na tradução.

Carlos Ribeiro
Sun, 27 Oct 2019 22:20:44 GMT

> @Thiago Santos de Moraes > Agora li a tradução, Carlos. Não vi nela nenhuma crítica à Imitação, mas aos exageros que a escola espiritual que lhe deu origem. Eu também já comentei isso: > @Carlos Ribeiro > O que foi transcrito e traduzido diz mais da Devotio Moderna do que da Imitação, mas no trabalho há várias citações que ainda pretendo verificar.

Carlos Ribeiro
Tue, 29 Oct 2019 04:18:19 GMT

> @Carlos Ribeiro > No antigo fórum do Ning eu comentei que tinha suspendido meu juízo sobre a Imitação de Cristo, pretendendo um dia estudar melhor a questão. Se não me engano, foi no tópico que abri sobre a inspiração dos hagiógrafos (principalmente dos evangelistas não-apóstolos); Karlos disse que não duvidava da inspiração da Imitação; eu disse que não só não reconhecia tal inspiração como havia suspendido meu juízo a respeito. Como eu disse aqui - > Eu não sabia concatenar bem minhas impressões, mas comecei a perceber vagamente os pontos 2, 3 e 7 quando li A Alma de todo o Apostolado, por volta de 2014 (eu tinha percebido método demasiado na Filoteia, mas nada parecido na História de uma Alma). - eu não sabia explicar muito, mas a perspectiva da Alma do Apostolado (livro de cabeceira de São Pio X) me pareceu totalmente diferente, me motivando na vida espiritual em pouco tempo e com apenas [até então] uma leitura o que em muito tempo e com no mínimo duas leituras não percebi na Imitação (a primeira vez que a li foi em 2010); li acusações de _prelest_ (ilusão espiritu al) vinda de "ortodoxos" e de [pseudo-]misticismo alemão vinda de editores supostamente católicos; comentei também que ela era agostiniana demais pra mim, mas que o prof. Angueth dizia que onde parecia influência de Sto Agostinho, devíamos ver de São Bernardo. Paulo comentou perguntando alguma coisa, mas eu apenas disse que não podia ir contra a recomendação de bispos e santos, e por isso suspendia meu juízo; lia o Manuscrito B de Santa Teresinha, mas a Imitação, não. Também comentei ter ouvido a história de que o processo de canonização de Tomás de Kempis ter sido interrompido por supostamente terem sido encontradas marcas de arranhão em seu caixão, ao que Karlos respondeu não depor necessariamente contra o monge. Eu pretendia voltar a estudar a questão apenas depois de estudar melhor Lógica, Metafísica e Teologia, mas sinceramente já não tinha mais essa intenção, e agora vi que eu não tava tão louco e que alguém já fez esse trabalho. O problema não é ele estar em espanhol, mas que todas as citações às obras estão em latim.

next