apologetica

Open full view…

"Superioridade" do rito romano sobre os demais ritos

Higo Felipe
Sat, 02 Jan 2021 00:59:35 GMT

Caros, algumas vezes já li e tomei conhecimento de afirmações, principalmente no meio tradicionalista, no sentido de que o rito romano tradicional seria o mais perfeito rito da Igreja, mesmo levando em consideração os igualmente tradicionais ritos orientais. Sei também que, numa recente contramão de tais afirmações, um dos decretos do CVII, o [Orientalium ecclesiarium](http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_decree_19641121_orientalium-ecclesiarum_po.html) afirma que "Por isso, elas [as Igrejas do Oriente e do Ocidente] gozam de dignidade igual, de modo que nenhuma delas precede as outras em razão do rito". A minha dúvida é: já houve afirmações do Magistério ou de outras autoridades que embasam essa alegação? Se sim, alguém poderia citá-las e/ou comentá-las?

Higo Felipe
Sat, 02 Jan 2021 03:02:13 GMT

> @Thiago Santos de Moraes > E não é preciso confiar no Vaticano II para entender que não pode haver um rito superior a a outro, é só diferenciar rito e Missa, e não romantizar a história. Thiago, como essa distinção poderia levar à conclusão de que não pode haver um rito superior a outro?

ruirmachado
Sat, 02 Jan 2021 03:17:23 GMT

Higo, eu penso que é possível uma superioridade acidental do rito romano não apenas por causa da defecção das igrejas dissidentes, mas também pelo apeifeiçoamento consoante o desenvolvimento teológico sob a tutela de Roma. Um exemplo é o lugar da epiclese. Outra questão seria a das palavras da consagração, a fórmula do batismo ou fórmulas de outros sacramentos.

Thiago Santos de Moraes
Sat, 02 Jan 2021 06:23:35 GMT

> @ruirmachado > Mas, em todo catecismo, se ensina que as quatro notas convêm única e exclusivamente à Igreja Católica. Se ensina isso no sentido de a Igrejas as ter com perfeição, mas não que acidentalmente uma delas não possa aparecer, embora que de um modo imperfeito, numa seita (seja na instituição em si, seja em seus membros). Por exemplo, vejamos o que Boulanger diz sobre a apostolicidade nas seitas do cisma bizantino: "A Igreja grega é apostólica por suas origens. Seus ministros são verdadeiros bispos e verdadeiros padres, como os da religião católica. No entanto, não remonta aos Apóstolos, nem pela doutrina, nem por seus chefes atuais, separados da autoridade legítima de Roma."

Thiago Santos de Moraes
Sat, 02 Jan 2021 06:33:53 GMT

> @Higo Felipe > Thiago, como essa distinção poderia levar à conclusão de que não pode haver um rito superior a outro? Porque qualquer rito não passa de algo em torno de um centro, que é a Missa. E isso que está em torno (não estou falando do rito de Paulo VI, que é outra conversa) foi sempre desenvolvido ao longo dos séculos com a ajuda do Consolador para aproximar determinado grupo humano do mistério presente no Santo Sacrifício, ou seja, tem uma inflexão espacial, cultural e histórica. Então, a não ser que você prove que há um grupo humano superior aos outros nesses quesitos, e prove usando os dados da Revelação, tem de considerar todos os ritos tradicionais essencialmente iguais.

Thiago Santos de Moraes
Sat, 02 Jan 2021 06:40:36 GMT

> @ruirmachado > Higo, eu penso que é possível uma superioridade acidental do rito romano não apenas por causa da defecção das igrejas dissidentes, mas também pelo apeifeiçoamento consoante o desenvolvimento teológico sob a tutela de Roma. Um exemplo é o lugar da epiclese. Esse argumento me parece falho por vários motivos: 1) A Igreja Maronita, por exemplo, nunca cismou; 2) Esse aperfeiçoamento teológico só veio mesmo depois de Trento, antes tudo era tão solto quanto em qualquer outro rito histórico (o que quero dizer é que o que mantinha a ortodoxia era muito mais um apego pelo que foi legado do que a filtragem feita por uma burocracia teologal com pouquíssimos meios de ação); 3) Em quê o lugar da Epiclese indica aperfeiçoamento?

ruirmachado
Sat, 02 Jan 2021 12:55:07 GMT

>Se ensina isso no sentido de a Igrejas as ter com perfeição, mas não que acidentalmente uma delas não possa aparecer, embora que de um modo imperfeito, numa seita (seja na instituição em si, seja em seus membros). Por exemplo, vejamos o que Boulanger diz sobre a apostolicidade nas seitas do cisma bizantino: A ideia é que todas essas notas irão aparecer nas seitas de modo imperfeito e incompleto. De modo completo e perfeito, só na Igreja Católica, porque tais notas são distintivos da Igreja Católica, não só o conjunto delas, mas cada uma individualmente. Assim, há santos entre os cismáticas, mas a Igreja cismática não goza da marca externa da santidade; há uma sucessão que remonta aos Apóstolos, todavia nem sempre unida à missão que caracterizaria tal sucessão, daí meramente material.

ruirmachado
Sat, 02 Jan 2021 13:14:30 GMT

Sobre a suposta superioridade do rito romano, tem a ver com este estar mais atinado às decisões teológicas da Igreja de Roma, por exemplo, a Igreja de Roma ensina a importância das palavras da consagração, importância essa que era dada pelos orientais à epiclese, também tem partes importantes nas palavras da consagração, na fórmula de batismo, cuja importância foi atestada pelo magistério, e que faltam no rito oriental, todavia sem torná-lo inválido ou ilícito (cf. Decreto para os armênios).

ruirmachado
Sat, 02 Jan 2021 14:00:28 GMT

Aqui não se está propondo um defeito no rito oriental, mas acho natural que um rito expresse melhor algum desenvolvimento teológico do que outro. E algumas especificidades latinas foram explicitamente ensinadas aos armênios no Concílio de Florença, sem, no entanto, desautorizar a práxis oriental. Ensinou-se, por exemplo, o rito latino da ordenação, a fórmula latina do batismo, da crisma, etc.

Paulo Vinícius Costa Oliveira
Sat, 02 Jan 2021 18:13:03 GMT

> @ruirmachado > Sobre a suposta superioridade do rito romano, tem a ver com este estar mais atinado às decisões teológicas da Igreja de Roma Parece que é por isso o dizer que a Igreja canonizou o Rito Romano (assim como canonizou a filosofia e teologia tomista). P.s.: o uso do latim, com sua exatidão, riqueza, sobriedade e ademais atributos não poderia ser um possível motivo também, Rui? Já ouvi algo neste aspecto.

ruirmachado
Sat, 02 Jan 2021 20:32:38 GMT

Talvez. Inclusive, pode-se fazer um interessante paralelo aqui com o rito bizantino, que tem sua celebração em várias línguas nacionais, como grego, russo, árabe, georgiano, etc.

Higo Felipe
Sat, 02 Jan 2021 21:18:45 GMT

> @Paulo Vinícius Costa Oliveira > Parece que é por isso o dizer que a Igreja canonizou o Rito Romano (assim como canonizou a filosofia e teologia tomista). Quando e onde ocorreu essa canonização?

Paulo Vinícius Costa Oliveira
Sun, 03 Jan 2021 00:08:49 GMT

> @Higo Felipe > Quando e onde ocorreu essa canonização? O termo canonização aqui não é no sentido próprio e vulgarizado, trata-se de uma conotação lata e por analogia. A "Quo Primum Tempore" não deixa de ser um dos pressupostos desta, tentando responder mais precisamente a indagação.

Thiago Santos de Moraes
Sun, 03 Jan 2021 00:13:17 GMT

Mesmo supondo que eu adotasse essa visão de "canonização", ainda assim, até pela dada do documento citado, ela não implicaria em nenhum tipo de superioridade.

Thiago Santos de Moraes
Sun, 03 Jan 2021 00:20:42 GMT

> @ruirmachado > A ideia é que todas essas notas irão aparecer nas seitas de modo imperfeito e incompleto. De modo completo e perfeito, só na Igreja Católica, porque tais notas são distintivos da Igreja Católica, não só o conjunto delas, mas cada uma individualmente. Foi exatamente o que eu disse antes. > @ruirmachado > Sobre a suposta superioridade do rito romano, tem a ver com este estar mais atinado às decisões teológicas da Igreja de Roma, por exemplo, a Igreja de Roma ensina a importância das palavras da consagração, importância essa que era dada pelos orientais à epiclese, também tem partes importantes nas palavras da consagração, na fórmula de batismo, cuja importância foi atestada pelo magistério, e que faltam no rito oriental, todavia sem torná-lo inválido ou ilícito (cf. Decreto para os armênios). Isso não implica em superioridade, apenas em uma fiscalização mais atuante. Além disso, não posso deixar de notar que essa ideia de que os orientais tomam a Epiclese no sentido que tomamos as palavras da Consagração é um equívoco e um equívoco divulgado por here ges como o Cardeal Kasper no intuito de justificar sua aprovação da Anáfora de Addai e Mari. O que a teologia oriental (bizantina) ensina é que todo o Cânon (Anáfora) é essencial à consagração, ou seja, a intenção do sacerdote perpassa todas as orações que o compõem. > @ruirmachado > Aqui não se está propondo um defeito no rito oriental, mas acho natural que um rito expresse melhor algum desenvolvimento teológico do que outro. E vice-versa. Tem coisas que são melhor expressas em outros ritos; se formos pontuar, vamos achar algo assim em qualquer rito histórico.

Thiago Santos de Moraes
Sun, 03 Jan 2021 00:23:35 GMT

> @ruirmachado > A Igreja Greco-Russa afirma a mesma coisa. Mais ainda: não aceita a legitimidade de qualquer outro rito que não seja o bizantino. Essa informação não me parece correta, já que a _Igreja Russa fora das fronteiras_ manteve durante anos uma espécie de prelazia pessoal para o rito romano (no caso, ele na sua forma pré-tridentina e com "correções"). A Igreja Antioquena continua a manter algo assim.

Paulo Vinícius Costa Oliveira
Sun, 03 Jan 2021 00:24:01 GMT

> @Paulo Vinícius Costa Oliveira > A “Quo Primum Tempore” não deixa de ser um dos pressupostos desta, tentando responder mais precisamente a indagação. Complementando: >A Missa de São Pio V tem suas origens nas mais antigas tradições apostólicas e alimentou a alma dos santos mais importantes da história da Igreja durante vários séculos. >Este rito provém visivelmente do coração de nossa Santa Madre Igreja e é o fruto de uma longa tradição. Expressa santamente a doutrina católica do Santo Sacrifício da Missa e foi canonizado por São Pio V definitivamente. Ele o estabeleceu como a maneira oficial de rezar a Santa Missa, válida para todos os padres de rito romano de todos os tempos. https://lareja.fsspx.org/pt/missa-tridentina

Thiago Santos de Moraes
Sun, 03 Jan 2021 00:26:07 GMT

> @ruirmachado > Inclusive, pode-se fazer um interessante paralelo aqui com o rito bizantino, que tem sua celebração em várias línguas nacionais, como grego, russo, árabe, georgiano, etc Não é bem assim. Remeto para a nota 2 do seguinte texto: [Dois irmãos e um estranho](https://apologetica.net.br/2018/07/13/dois-irmaos-um-estranho/)

Thiago Santos de Moraes
Sun, 03 Jan 2021 00:28:13 GMT

Canonizado aí, Paulo, quer dizer regulado, assumido pelo direito (pelos canons).

Paulo Vinícius Costa Oliveira
Sat, 17 Apr 2021 20:46:07 GMT

Sobre a grandeza do Rito Romano: https://www.diesirae.pt/2021/04/a-grandeza-do-rito-romano-antigo.html

Higo Felipe
Mon, 19 Apr 2021 20:17:35 GMT

Quando à grandeza, sem dúvidas: o rito romano tradicional é uma obra-prima do Espírito Santo; ainda, no entanto, não consegui me convencer do que vários padres tradicionalistas afirmam, ao dizer que é o rito mais perfeito, mesmo contando os igualmente tradicionais ritos do Oriente. Há, na verdade, inclusive um Decreto do Vaticano II, [Orientalium Ecclesiarum](https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_decree_19641121_orientalium-ecclesiarum_po.html), que afirma categoricamente que as igrejas particulares do Oriente e do Ocidente __gozam de dignidade igual, de modo que nenhuma delas precede as outras *em razão do rito*_. É o que me parece mais lógico, dado o exposto aqui até o momento.

next